FALA, JÚLIO GARCIA: Burocracia e respeito

Meu pai Zé Garcia trabalhou em uma unidade da saúde pública que, à época, se chamava Serviço de Profilaxia da Lepra. Hoje, em vez de lepra, a doença é chamada de hanseníase. Desde os tempos bíblicos, com a história de Lázaro, essa doença motiva preconceitos, medos e rigorosa segregação dos doentes, pelas lesões e deformações que causa na pele das vítimas. Os doentes eram chamados de lazarentos. Escondiam até de parentes serem portadores da doença.

Pois bem, certo dia, meu pai entregava medicamento com seu jipe particular na residência de um paciente quando o chefe do Centro de Saúde passou de carro pela rua e o viu sair da casa. O chefe estrilou:

– O que você faz neste lugar em seu horário de trabalho?

– Entrego medicamento a um paciente, chefe.

– Mas, que idiotice é essa de trazer remédio com seu veículo particular? Cadê a viatura oficial?
Respeitosamente, pai explicou:

– Doutor, este homem esconde da própria família que tem a doença. Como é que vou parar a viatura aqui na frente, com aquela inscrição na porta: Serviço de Profilaxia da Lepra?

– Não interessa! – rebateu o chefe. – Temos de mostrar serviço! Viatura oficial! Oficial, entendeu?

Zé Garcia deixou de lado sua costumeira afabilidade e rebateu:

– Só se o senhor vier entregar!

O chefe saiu queimando os pneus do carrão e sumiu no fim da rua.

Ao retornar ao serviço, pai recebeu um recadinho da colega recepcionista, para que observasse o livro de ponto. E constatou que sua entrada, naquele dia, estava riscada com traço em vermelho. Perdera o dia de trabalho porque não usara veículo oficial no atendimento ao doente de lepra.

Meses depois, o médico-chefe saiu em férias para uma pescaria no Mato Grosso. E retornou com dois dias de atraso. Mas, assinou o ponto como se tivesse retornado na data correta. Pai pegou o livro, rasgou a página que continha a presença irregular do médico e o entregou à recepcionista, com o recado:

– Informe a ele esta ocorrência, diga que fui eu, e lembre a ele que é obrigatório instaurar inquérito administrativo, denunciando-me como autor.

Segundo a recepcionista contou, o chefe pegou o livro, ouviu a informação e foi para a sala dele. Dois dias depois, um misterioso incêndio ocorreu na sala do chefe, que ele trancava ao sair, e destruiu o pequeno armário de madeira, onde estava o livro de ponto mutilado. Nada sobrou. Não foi possível instaurar inquérito.

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Júlio Cezar Garcia é jornalista e um dos fundadores do Jornal da Segunda

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