150 – FALA, JÚLIO GARCIA – Visitantes extraterrestres

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Entrevista da revista Veja com o professor Avi Loeb, catedrático da Universidade de Harvard, sobre civilizações fora do nosso sistema solar, fez-me lembrar a história do sitiante Maurício Pereira da Silva, de Riolândia, no Paraná. E de uma viagem de ônibus que fiz de Assis para São Paulo, nos tempos em que trabalhava lá, na Editora Abril.

Maurício disse aos repórteres que havia acordado na madrugada devido a ruídos estranhos no canavial que cercava a sede da propriedade. Espiou pela janela e viu uma espécie de nave, redonda, que ele comparou a uma descomunal melancia, pairando sobre a vegetação. O episódio teve grande repercussão na mídia, porque é da natureza dos homens encantar-se com ficção científica. Desde Júlio Verne e das histórias em quadrinhos de Flash Gordon.

Um gibi do herói do espaço valia dois ou três do Mandrake, do Fantasma ou do Roy Rogers no mercado de troca que se instalava na fila de entrada para as matinês do Cine Palmital – morei lá na década de 1950.

Não perdia os filmes de ficção. Um deles lembrava a história do Maurício de Riolândia. Um disco-voador pousa na área rural de uma pequena cidade e atrai os moradores. Alguns, que conseguiram entrar na nave, saíram com uma perfuração discreta na nuca e passaram a ter comportamento belicoso, agressivo. Por algum tempo, o filme provocou turbulências em meus sonhos.

Muitos anos depois, eu voltava de ônibus de Assis para São Paulo, após o fim-de-semana com a família, e sentei-me ao lado de uma senhora. Eu a conhecia de vista. Era mãe de um ex-colega de ginásio. A conversa, sobre amenidades, era entrecortada por longos silêncios. Até que, em dado momento, ela me encara e afirma:

– Vocês, terráqueos, são muito imperfeitos.

Passados alguns segundos da surpresa, arrisquei, timidamente:

– E a senhora, de onde é?

Com tranquilidade glacial, ela respondeu:

– De Aldebarã, já ouviu falar?

Sim, eu era editor do capítulo de Astronomia e Astronáutica no Almanaque Abril, e sabia que Aldebarã era a maior estrela da constelação de Touro. Só ignorava que fosse habitada. Meu raciocínio travou. A conversa esgotou-se ali. Mãe do meu amigo!…De Aldebarã?…

Recolhi-me à minha terráquea insignificância.

Cerca de um ano depois, noutro fim de semana em Assis, encontrei-me com o filho dela. Era gerente de um supermercado. Conversamos sobre as amenidades de sempre, até que ele me contou que a mãe havia morrido, vítima de uma série de complicações cardiorrespiratórias.
A atmosfera terrestre deve fazer muito mal aos seres desenvolvidos.

fala, julio garcia

Júlio Cezar Garcia é jornalista e um dos fundadores do Jornal da Segunda

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